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A pandemia e o topo da classe C, os esquecidos da desigualdade.

7 maio 2020

Há um estrato relevante da população brasileira que se sente excluído dos diversos ‘privilégios’ criados pelo setor público. Há uma percepção de que as políticas públicas são sempre direcionadas para ‘o outro’.

Às vezes não nos damos conta do tamanho da pobreza no Brasil. Com alguma variação entre metodologias, chega-se a 130 milhões de pessoas vivendo com até R$ 1.500 per capita de renda familiar. Dentro desse grupo, aproximadamente um quarto da população vive em famílias que não chegam a meio salário mínimo de renda per capita. Ou seja, são famílias ganhando R$ 2.000 para sustentar quatro pessoas.

Apesar da alta vulnerabilidade, esse público não é igualmente alcançado por políticas públicas. Mesmo em momentos debaixo desemprego, é comum que essas famílias vivam à base de inúmeras rendas informais e variáveis. É o segurança com contrato CLT que faz bico em eventos no fim de semana, a manicure que também vende cosméticos, até o assistente administrativo que ajuda um parente que tem um carreto de mudança. São várias as estratégias para garantir alguma segurança de renda no final do mês. Ainda assim, a maioria mal consegue garantir suas contas básicas. Muitos estudos da Plano CDE chegam a números similares. Por volta de 80% da população das classes CDE não têm poupança o suficiente para viver um mês sem nenhuma renda. Podemos imaginar, e já estamos vivenciando, o cenário de desastre causado pela crise da pandemia de covid-19.

Nos últimos anos, houve um avanço de percepções antiestado em diversos estratos da população. Uma desconfiança generalizada em políticas públicas é parte das muitas “ondas conservadoras” que ocorrem pelo mundo, incluindo o Brasil. Esse caso específico da Renda Básica Emergencial durante a pandemia lança luz sobre uma possível causa dessa desconfiança. Há um estrato relevante da população brasileira que se sente excluído dos diversos “privilégios” (em suas palavras) criados pelo setor público. Há uma percepção de que as políticas públicas são sempre direcionadas para “o outro”. Em um estudo realizado em março de 2019 com conservadores de renda média no Brasil identificamos um discurso de rejeição de toda política pública focalizada, por nunca “olhar para mim”: seja o Bolsa Família, as cotas, passando por delegacias da mulher ou programas de incentivo à contratação de pessoas trans.

Além dos óbvios pontos de atenção do viés econômico da exclusão dessa parcela significativa da classe C do programa de renda básica, deve-se considerar que um projeto de renda básica altamente focalizado pode gerar ainda mais desconfiança do poder público e sensação de descartabilidade nessas 50 milhões de pessoas não atendidas. Nos EUA, é em um perfil similar da população — de renda média e trajetória descendente — que se encontra a epidemia de suicídios e overdose por opioides. Atentar para os efeitos desta crise sobre toda a população é algo que supera, em muito, a simples questão econômica.