Artigo na Folha de São Paulo - Plano CDE
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Artigo na Folha de São Paulo

 31 agosto 2020

Lauro Gonzalez – Professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo-FGV e coordenador do Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV

Maurício de Almeida Prado – Diretor-executivo da Plano CDE

 Breno Barlach – Gerente de Projetos da Plano CDE

O que explica o lançamento da nota de R$ 200? Além de a circulação de papel-moeda prejudicar o combate à transmissão do coronavírus, a decisão do BC aprece remar na contramão do processo de digitalização dos meios de pagamento que se espalha pelo mundo, sobretudo nos países desenvolvidos.

Tudo indica que o destino final no mapa dos meios de pagamento é uma sociedade sem moeda (“cashless societies”). Entretanto, esse mesmo mapa mostra que diferentes caminhos podem ser seguidos, sendo que os obstáculos a serem transpostos variam conforme as características dos diferentes países.

No Brasil, vários desses obstáculos se ligam à realidade das finanças da baixa renda, cuja compreensão pode ajudar a explicar a decisão do Banco Central.

Começando pelo contexto, o auxílio emergencial de R$ 600 ou R$ 1.200 tem injetado montante elevado de recursos na economia. Estudo recém-divulgado estima que o benefício tenha mais que compensado a perda de renda com a pandemia.

Quando se considera o auxílio, a renda nesta crise é 24% maior que a renda usual pré-pandemia. Obviamente, tal impacto só é possível porque a renda da maioria dos brasileiros é muito baixa.

Diante dessa conjuntura, qual o comportamento esperado de parcela relevante das 65 milhões de pessoas que receberam o auxílio? Para responder, vale começar atentando para o fato de que uma fração reduzida (menos de 10%) da população das classes CDE costuma utilizar os bancos mais de uma vez por mês. Na mesma direção, sabe-se que os beneficiários do Bolsa Família frequentemente sacam os recursos mensais de uma só vez, mesmo que os benefícios, apesar de reduzidos (teto de R$ 205), não sejam gastos imediatamente.

Levantamento recente da Plano CDE mostra que três razões explicam a preferência pelo saque imediato do auxílio. Primeiramente, o receio de fraude, visto tipicamente como a possibilidade de outra pessoa se apropriar do dinheiro recebido. Outra razão é o receio de mudança na política, ou seja, o temor de que o auxílio seja cancelado e o valor já depositado nas contas seja “recolhido de volta”. Por fim, há um cálculo racional envolvendo os altos custos associados à movimentação dos recursos (DOC, TED), a eventual cobrança de tarifas adicionais etc.

No contexto de uma transferência social emergencial, os defeitos e as ineficiências do sistema financeiro colaboraram para aumentar a demanda e a circulação de papel-moeda.

Por fim, o comportamento de poupança da população de baixa renda é largamente desconhecido.

Prevalece a ideia de que os pobres não poupam por falta de recursos. Entretanto, as evidências mostram o contrário: os pobres poupam, só não o fazem nos mesmos moldes previstos pelos modelos econômicos convencionais. Prepondera na baixa renda um padrão de poupança de alta frequência —pequenos valores guardados com maior frequência e utilizados conforme a necessidade.

Essa poupança é comumente guardada em casa, fato que se soma às medidas de distanciamento social que fazem com que os recursos circulem menos, ou seja, retornarem ao sistema bancário em velocidade menor.

O BC parece ter sido motivado a lançar a nota simplesmente para atender a demanda excepcionalmente alta. Claro que faltou explicar adequadamente a escolha do valor de R$ 200, considerando que notas maiores têm sido evitadas a fim de combater lavagem de dinheiro.

Entretanto, falta uma melhor compreensão sobre o uso cotidiano do dinheiro por parte das pessoas de baixa renda, cujas estratégias de sobrevivência não são capturadas pelo radar de Brasília.